Quilombolas pautam novo modelo de saúde para o SUS

A proposta de um novo modelo de saúde para o Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da experiência e necessidades dos quilombolas é um tema de grande relevância e atualidade. A pandemia de Covid-19 trouxe à tona uma série de desigualdades já existentes e acentuou as condições de vulnerabilidade enfrentadas por esse importante grupo social. As disparidades no acesso aos serviços de saúde, que já eram evidentes antes da crise sanitária, foram ainda mais exacerbadas, revelando os limites do sistema na promoção da saúde em territórios rurais e remotos. Este artigo busca explorar o contexto histórico e social dos quilombolas, as dificuldades que enfrentaram durante a pandemia e as propostas emergentes para um SUS que respeite suas especificidades, sempre com um olhar optimista sobre o futuro.

Quilombolas pautam novo modelo de saúde para o SUS – 01/04/2025 – Papo de Responsa

Os quilombolas, que são descendentes de africanos escravizados, têm um papel central na construção de um novo modelo de saúde no Brasil. A luta por reconhecimento e dignidade no acesso à saúde pública se intensificou, especialmente em resposta aos impactos da pandemia. Dados da Coordenação Nacional de Quilombos (Conaq) mostram que a taxa de mortalidade entre esses povos foi significativamente maior do que na população em geral, refletindo a precariedade das condições de saúde e o abandono histórico do Estado.

Durante a pandemia, o acesso a serviços de saúde tornou-se ainda mais complexo, principalmente em estados do Norte do Brasil, onde a distância média entre um território quilombola e a unidade de saúde mais próxima pode chegar a 43 quilômetros. Essa realidade ilustra a necessidade urgente de desenvolver políticas de saúde que considerem as realidades locais e as especificidades culturais das comunidades quilombolas. O Sistema Único de Saúde, que se propõe a oferecer atendimento universal e igualitário, enfrenta desafios significativos para garantir que suas ações realmente alcancem todos os brasileiros, especialmente aqueles que vivem em áreas rurais e remotas.

A medicina quilombola e suas práticas tradicionais

Um dos pontos fortes da saúde em comunidades quilombolas é a riqueza dos saberes e práticas da medicina tradicional. Os quilombolas possuem um conhecimento profundo sobre plantas medicinais e práticas de cuidado que têm sido transmitidos por gerações. Os métodos, como o uso de chás, infusões e outros remédios naturais, são profundamente enraizados na cultura local e têm sido uma forma eficaz de promoção da saúde frente à ausência de serviços públicos adequados.

A valorização da medicina quilombola é uma das propostas que emergem a partir das mobilizações por um novo modelo de saúde. A primeira Conferência Nacional Livre de Saúde Quilombola, realizada em 2023, trouxe mais de 1.200 participantes e resultou na criação da Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola (PNASQ/SUS), que visa integrar saberes tradicionais com conhecimentos científicos, criando um sistema de saúde mais inclusivo e respeitoso.

Essa abordagem possibilita que os quilombolas se sintam protagonistas na construção de seus cuidados e promove, ao mesmo tempo, o respeito pelos saberes ancestrais que são tão fundamentais para suas comunidades.

Desafios na implementação do SUS quilombola

Apesar dos avanços com a criação da PNASQ/SUS, diversos desafios permanecem na efetivação de um modelo de saúde inclusivo para os quilombolas. O racismo institucional é um problema sistêmico que muitas vezes impede a população quilombola de receber o atendimento que necessitam. As barreiras de comunicação, preconceitos e a falta de formação adequada dos profissionais de saúde em relação às especificidades culturais ainda são obstáculos que precisam ser superados.

Outro desafio significativo é o desfinanciamento da saúde pública, que afeta diretamente a qualidade do atendimento disponível para toda a população, mas é particularmente nocivo para as comunidades historicamente marginalizadas. A capacidade do SUS de responder adequadamente às necessidades de saúde dos quilombolas está ligada a um investimento sustentável e a um comprometimento real do Estado com a equidade em saúde.

Os gestores e profissionais de saúde devem ser capacitados para reconhecer as trajetórias históricas de violação de direitos vivenciadas pelos quilombolas. A sensibilização e formação sobre questões de etnicidade, cultura e saúde devem ser parte fundamental da formação profissional, permitindo que o sistema de saúde se torne mais humano e acessível.

A construção de um SUS mais justo e inclusivo

O SUS quilombola não é apenas uma resposta aos desafios enfrentados, mas também um passo significativo para a reparação histórica dos injustiçados. A busca por ambientes saudáveis e sustentáveis está no cerne das discussões sobre a saúde quilombola.

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Um modelo de saúde que respeite as especificidades culturais, territoriais e étnico-raciais oferece a oportunidade de criar um sistema que realmente atenda às demandas da população. Não se trata apenas de oferecer serviços de saúde, mas sim de construir relações em que os quilombolas sejam ouvidos e suas vozes sejam integradas nas políticas públicas.

A participação social é fundamental nesse processo. As ações devem ser construídas coletivamente, partindo das necessidades expressas pelas comunidades. Os títulos de gestão de saúde, que incluem a formação de conselhos e grupos de trabalho, são essenciais para garantir que os quilombolas estejam representados nas decisões que afetam suas vidas e saúde.

Perspectivas futuras e o papel da juventude quilombola

O cenário futuro para os quilombolas no contexto do SUS é promissor, especialmente com a crescente mobilização e organização das novas gerações. A juventude quilombola está pautando novos diálogos sobre saúde, buscando formas inovadoras de se engajar e reivindicar seus direitos.

A integração de novas tecnologias, como telemedicina e aplicativos de saúde, pode oferecer soluções viáveis para superar as barreiras geográficas e melhorar o acesso aos serviços de saúde. Além disso, o fortalecimento das práticas de medicina tradicional e a valorização do conhecimento ancestral são estratégias que podem coexistir com os avanços da medicina moderna, criando um sistema de saúde plural e respeitoso.

Navigar pelas complexidades da saúde quilombola exigirá não apenas a colaboração entre diferentes setores da sociedade, mas também a construção de um compromisso genuíno para garantir que a saúde seja um direito acessível para todos, sem discriminação.

Perguntas frequentes

Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos quilombolas no acesso à saúde?
As principais dificuldades incluem a distância das unidades de saúde, o racismo institucional, a falta de formação adequada dos profissionais de saúde em relação à cultura quilombola e o desfinanciamento da saúde pública.

Como a medicina quilombola contribui para a saúde das comunidades?
A medicina quilombola faz uso de saberes tradicionais, utilizando plantas medicinais e práticas que foram passadas de geração em geração, proporcionando cuidado e tratamento para diversas condições de saúde de maneira culturalmente apropriada.

O que é a Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola (PNASQ/SUS)?
A PNASQ/SUS é uma proposta que visa integrar os saberes tradicionais dos quilombolas com as práticas de saúde pública, promovendo um modelo mais inclusivo e respeitoso para as comunidades, com enfoque nas especificidades culturais e territoriais.

Como a juventude quilombola está se engajando nas questões de saúde?
A juventude quilombola está cada vez mais envolvida nas mobilizações por direitos, utilizando tecnologia e novas ferramentas de comunicação para reivindicar o acesso à saúde e fortalecer a cultura quilombola.

Quais são os principais objetivos do SUS quilombola?
Os objetivos incluem garantir acesso equitativo aos serviços de saúde, respeitar as especificidades culturais quilombolas, e promover a participação social nas decisões relacionadas à saúde das comunidades.

Quais são as perspectivas futuras para a saúde quilombola no Brasil?
As perspectivas incluem a consolidação do SUS quilombola, o fortalecimento do uso de práticas tradicionais de saúde e uma maior mobilização social para garantir que as vozes quilombolas sejam ouvidas nas políticas públicas.

A busca por um novo modelo de saúde no SUS, pautado pelas necessidades e saberes dos quilombolas, é um passo significativo na luta por igualdade e justiça social. A construção de um sistema de saúde que respeite e valorize a diversidade cultural é fundamental para a construção de um Brasil mais justo e igualitário.